O Que Leva Silenciosamente Ao Divórcio, Segundo Um Psicólogo

  • Autor do post:
  • Tempo de leitura:11 minutos de leitura

Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.

 

 

O divórcio raramente é resultado de um único evento catastrófico. Na maioria das vezes, é a erosão lenta da intimidade — um afastamento gradual, até que um ou os dois parceiros passem a se sentir mais sozinhos dentro do relacionamento do que estariam fora dele.

Uma das mentalidades mais traiçoeiras que alimenta esse distanciamento é o que chamo de “espelho unilateral” — o hábito de enxergar o parceiro como ele realmente é, mas não se permitir mais ser visto por completo por ele. No começo, parece inofensivo. Você se contém um pouco para evitar discussões. Guarda certos pensamentos achando: “qual é o sentido de compartilhar algo tão pequeno?”. Mas com o tempo, esses pequenos gestos de autoproteção constroem um muro emocional, transformando o casamento em algo que parece intacto por fora, mas que por dentro está vazio.

É assim que essa mentalidade leva silenciosamente ao divórcio — muito antes de alguém dizer essa palavra em voz alta.

1. Você para de compartilhar as pequenas coisas — e depois, as grandes

Nos primeiros anos de um relacionamento, a conversa flui naturalmente. Vocês tendem a compartilhar tudo — pensamentos aleatórios, frustrações do dia a dia e sonhos para o futuro. Não se trata apenas de comunicação; é o reflexo de uma conexão profunda. Mas, com o passar do tempo, algo pode mudar. A vida fica mais corrida, o estresse se acumula e, sem perceber, você começa a filtrar o que divide com o outro.

Você pensa:

  • “Ele não precisa saber do meu estresse no trabalho — não é tão importante assim.”
  • “Não quero trazer à tona aquele comentário que machucou — isso só vai virar briga.”
  • “Ele não entenderia o que estou sentindo, de qualquer forma.”

No começo, são só as coisas pequenas, só que quanto menos você compartilha, menos sente que há troca. Uma pesquisa publicada na revista “Communication Research” ajuda a entender por que isso acontece. Os pesquisadores descobriram que a incerteza dentro do relacionamento tem um papel central na evitação de certos assuntos — quando as pessoas se sentem inseguras sobre o lugar que ocupam na relação, começam a evitar determinadas conversas.

Isso não acontece por falta de interesse, mas porque a pessoa começa a se perguntar como suas palavras serão recebidas. Serão ignoradas? Vão gerar conflito? Abrir-se vai fazer com que se sinta ainda mais vulneráveis? Essa fuga pode parecer uma forma de autopreservação, mas, na prática, cria o efeito do espelho unilateral: você continua vendo o seu parceiro, mas deixa de se permitir ser visto. Vocês continuam funcionando como casal, mas, por baixo da superfície, a solidão começa a crescer.

A mesma pesquisa também destaca outro padrão — evitar certos assuntos é mais comum quando os relacionamentos estão começando ou quando os parceiros estão começando a se afastar. No meio disso, quando a intimidade está segura, as pessoas se sentem mais livres para compartilhar. Só que quando a insegurança aparece, até pequenas omissões podem se transformar em um distanciamento emocional duradouro.

Mas é possível interromper esse afastamento antes que ele se transforme em desconexão. Quebre o silêncio antes que ele vire o padrão. Crie o hábito de compartilhar novamente as pequenas coisas. Por exemplo: “aconteceu uma coisa engraçada hoje” ou “tenho pensado em algo ultimamente”. Esses pequenos momentos de abertura funcionam como pontes, mantendo a conexão viva antes que o distanciamento tome o lugar dela.

2. Você começa a achar que seu parceiro deveria simplesmente “saber” o que você precisa

Um dos maiores equívocos nos relacionamentos é a crença de que o amor verdadeiro envolve leitura de mente. Você começa a acreditar que, se seu parceiro realmente o conhecesse e amasse, ele perceberia automaticamente quando você está com dificuldades ou do que você precisa — sem que seja preciso dizer. Mas, quando isso não acontece, o ressentimento começa a se instalar.

Um estudo de 2015, publicado na “Communication Research Reports”, explorou esse fenômeno por meio do conceito de “Expectativas de Leitura de Mente” (MRE, na sigla em inglês) — a crença de que os parceiros deveriam entender as necessidades e sentimentos um do outro sem que fosse necessário falar claramente.

O estudo identificou um padrão claro:

  • Expectativas de leitura de mente levam à insatisfação. Pessoas que esperam que o parceiro adivinhe o que precisam tendem a ser menos felizes no relacionamento.
  • Expectativas não atendidas causam sofrimento emocional. Quando o parceiro não percebe que há um problema, a pessoa que tinha a expectativa fica ainda mais magoada.
  • Essas expectativas geram comportamentos negativos. Esse sofrimento geralmente se manifesta em forma de brigas, críticas ou afastamento (como o famoso “tratamento do silêncio” ou fechamento emocional).

Além disso, a teoria da violação de expectativas, também destacada no estudo, explica esse ciclo: quando um parceiro não corresponde à expectativa de entender intuitivamente as emoções do outro, isso é sentido como uma quebra, o que leva a conflitos ou afastamento.

Na vida cotidiana, isso se manifesta de formas sutis, mas impactantes:

  • Você se magoa porque o outro não percebe que você está passando por algo difícil.
  • Fica frustrado por ele não oferecer ajuda.
  • Se afasta emocionalmente pensando que “se ele realmente me amasse, perceberia.”

A verdade é que, mesmo o parceiro mais amoroso, não tem como ler sua mente. E, cada vez que você espera isso dele, está impondo um teste silencioso que ele nem sabe que está fazendo — e falhando. A cada necessidade não dita, mais uma camada de distância se forma entre vocês. Para quebrar esse ciclo, troque a expectativa pela comunicação. Em vez de esperar que o outro perceba, diga o que você precisa. Por exemplo:

  • “Hoje, eu podia mesmo ouvir uma palavra de incentivo.”
  • “Queria passar mais tempo só nós dois neste fim de semana.”

A clareza convida à conexão. O silêncio, por outro lado, alimenta o ressentimento. Quanto mais você fala, em vez de testar a intuição do outro, mais constrói um relacionamento baseado na compreensão — e não em suposições.

3. Você começa a se sentir invisível e profundamente sozinho

Uma das formas mais significativas de sentir o amor de um parceiro é sentir que ele realmente vê você. No entanto, quando você entra na mentalidade do espelho unilateral, cria uma ilusão de conexão. Você vê o outro, escuta, participa da vida dele. Mas, sem perceber, para de se revelar. Você passa a esconder seus pensamentos, lutas e emoções, dizendo para si mesmo que o outro não entenderia ou que não vale o esforço.

Um estudo de 2020 confirma que a solidão dentro de relacionamentos não tem a ver com presença física, mas com percepção emocional. Mesmo em parcerias estáveis, a solidão está associada a uma menor satisfação na relação, a um sentimento de distanciamento e a uma diminuição na troca emocional. O mais perigoso é que esses sentimentos nem sempre aparecem de forma repentina. Em vez disso, a solidão vai se instalando aos poucos, fazendo você questionar os alicerces da relação. Você pode começar a pensar:

  • “Talvez a gente só tenha se distanciado mesmo.”
  • “Talvez ele não se importe como antes.”
  • “Talvez eu esteja melhor sozinho.”

E é muitas vezes nesse ponto que as pessoas decidem partir — não necessariamente para outra pessoa, mas em busca de uma versão de si mesmas que sentem ter perdido ao longo do caminho. Para romper esse ciclo, é preciso se permitir ser visto novamente. Isso não significa despejar todos os seus pensamentos de uma vez — mas dar pequenos passos em direção à abertura. Por exemplo:

  • “Tenho me sentido sobrecarregado ultimamente.”
  • “Sinto falta de quando a gente conversava sobre tudo.”
  • “Quero compartilhar algo com você, mesmo que me deixe um pouco vulnerável.”

Lembre-se: a solidão dentro de um relacionamento nem sempre tem a ver com a ausência do outro — e sim com a sensação de invisibilidade mesmo com ele ao lado. Quanto mais você compartilha, mais mantém o amor vivo.

Se o distanciamento estiver se aproximando, não espere o silêncio virar rotina. Comece aos poucos. Fale. Compartilhe um pouco mais hoje do que compartilhou ontem, porque a diferença entre um relacionamento que esfria e um que dura costuma estar na coragem de se deixar ver e amar.

O post O Que Leva Silenciosamente Ao Divórcio, Segundo Um Psicólogo apareceu primeiro em Forbes Brasil.

Deixe um comentário