Bolsa, Dólar e Petróleo Afundam: Como o Mundo Recebeu as Tarifas de Trump

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Em alta nesta manhã (03), a bolsa brasileira passa longe da cautela e mau humor que toma conta dos mercados internacionais após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aplicar as tão prometidas tarifas recíprocas na tarde de ontem (02). 

A reação do mercado pode ser resumida em poucas palavras: enquanto os investidores brasileiros celebram a tarifa de 10% por ser menor do que os 20% esperados, os agentes internacionais repercutem de forma negativa a extensão e intensidade das tarifas aplicadas a importantes parceiros comerciais dos EUA — além de questionamentos extras sobre a fórmula de cálculo utilizada para se chegar aos valores anunciados. 

Em Wall Street, o temor principal é com o dragão da inflação e uma desaceleração econômica capaz de jogar os Estados Unidos em uma nova recessão — cenário que não é visto desde 2020, no auge da pandemia do coronavírus. Por volta das 12h30, o Nasdaq recuava cerca de 6%, com o S&P 500 e o Dow Jones não muito atrás — em quedas de 4% cada. 

As “Magnificent 7”, composto pelas principais empresas de tecnologia do mundo — Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Nvidia, Meta e Tesla — já acumulam perdas de US$ 1 trilhão em valor de mercado em apenas metade do pregão desta quinta-feira (03). 

O pavor do mercado também se espalha para outros ativos. O bitcoin, por exemplo, recua quase 6%. O petróleo, que também repercute o inesperado aumento de produção anunciado pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e aliados, tomba 7%. Frente ao real, o dólar à vista apresenta uma desvalorização superior a 1%, com a moeda americana caindo abaixo dos R$ 5,60. 

“Uma política negativa catalisadora tão abrangente para a economia global exige, com razão, uma reavaliação das perspectivas gerais. Se as tarifas anunciadas forem implementadas e permanecerem nos níveis estabelecidos, o perigo de a economia global escorregar para uma contração certamente aumentou. Isso não significa que as recessões sejam uma certeza, apenas que a probabilidade agora é significativamente maior”, aponta Oliver Blackbourn, gerente de portfólio da Janus Henderson. “Os mercados claramente tomaram nota, mas ainda estão longe de precificar os cenários mais negativos, com avaliações de muitas ações ainda elevadas em comparação com o histórico.”

Na avaliação da Genial Investimentos, a tarifa de 10% imposta ao Brasil acabou “saindo barato”. Outros fortes aliados dos Estados Unidos também ficaram com a tarifa mínima: Reino Unido, Cingapura, Chile, Austrália e Nova Zelândia.

A despeito dessa surpresa positiva para o caso brasileiro, as maiores vantagens podem ser colhidas nos efeitos secundários, com a boa situação relativa do Brasil podendo se refletir em ganho de “market share” das exportações do país no mercado global. Adicionalmente, o “timing” é benéfico dado o mau momento vivido pela balança comercial brasileira, que vem pesando sobre o saldo em transações correntes”, explica Lucas Farina, analista de economia da Genial. 

Raio-X do Dia da Libertação

O anúncio das tarifas recíprocas foram feitos em grande estilo, com direito a evento especial, batizado de “Make America Wealthy Again” (faça a América rica novamente, em tradução livre). Durante semanas, Trump provocou os seus parceiros comerciais ao dizer que a data de 2 de abril seria conhecida como Dia da Libertação. 

As tarifas anunciadas ontem são cumulativas com outras já tornadas públicas anteriormente — como as impostas sobre a China, Canadá e México. Nesta rodada, o país asiático recebeu uma taxação adicional de 34%, o que eleva para 54% a alíquota total dos produtos. Além da China, o Camboja, Laos, Madagascar e Vietnã são os maiores afetados — com cobranças superiores a 45%. 

Apesar do governo americano ter declarado que o cálculo para as tarifas é baseado na metade do que os países cobram dos EUA (incluindo impostos e depreciação cambial), economistas apontam que a fórmula utilizada foi diferente: o percentual apresentado, na verdade, é o tamanho do déficit comercial das nações com relação aos Estados Unidos. 

André Diniz, sócio e economista-chefe da Kinea, ressalta que ainda há vários detalhes em aberto que ainda precisam ser melhor entendidos, mas, em princípio, a leitura é de um anúncio duro. 

Para analistas da XP investimentos, as taxações aplicadas por Trump desde o início de seu governo possuem três categorias — tarifas para negociação (aquelas que entram em vigor com o objetivo de levar os países afetados a negociarem com os EUA), tarifas em setores estratégicos (para impulsionar a agenda de reindustrialização) e a tarifa universal (com foco em ampliação de arrecadação). No caso dos percentuais anunciados ontem, a avaliação da corretora é de que sejam um misto da primeira e da terceira opção. 

Efeitos na economia americana

Na média, os anúncios do Dia da Libertação foram considerados muito piores do que o esperado. 

 Enquanto o resto do mundo tenta reorganizar as rotas comerciais e seus parceiros de negócio, os Estados Unidos —- dependente de muitos produtos produzidos fora de seu território — pode estar fadado a uma forte turbulência econômica. 

As tarifas de quarta-feira representam o maior aumento de impostos desde a Lei da Receita de 1968, que instituiu um imposto de renda temporário de 10% para financiar a Guerra do Vietnã nos EUA. 

Segundo cálculos do JP Morgan, o anúncio coloca a economia americana “perigosamente perto de cair em uma recessão”. Em relatório para clientes, o economista-chefe para os Estados Unidos, Michael Feroli, aponta que o discurso duro de Trump aponta para um fim diferente do que estava sendo potencialmente precificado pelo mercado. O banco calcula que a inflação ao consumidor (PCE, na sigla em inglês) pode chegar a 4%, bem acima da meta de 2% do Federal Reserve (o banco central americano). 

Nesse caso, a clássica receita de bolo da política monetária global entra em ação. Para conter a inflação, o Fed é obrigado a subir os juros. A alta dos juros desacelera a economia e amplia ainda mais as chances de uma recessão. 

O UBS também acredita que o desemprego pode subir para a casa dos 5,5% em caso de um choque econômico gerado pelas tarifas. 

“Caso os parceiros comerciais optem pela rota na negociação, as tarifas poderão ser reduzidas, mas dificilmente para baixo do patamar mínimo estabelecido em 10%. Nesse contexto, os países mais afetados devem buscar renegociar as condições bilaterais para evitar a escalada da guerra comercial e diminuir ao máximo os impactos sobre suas exportações”, aponta a XP Investimentos. 

 

 

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